Ao acessar o link indicado, não encontrei nada aparentemente suspeito. O endereço não era excessivamente longo nem apresentava combinações estranhas de caracteres; pelo contrário. Naveguei pelo site, li as diretrizes para autores e o escopo da revista. Tudo parecia coerente. No entanto, a página de submissão chamou minha atenção pela simplicidade do formulário. Em geral, periódicos científicos utilizam sistemas estruturados de gestão editorial, nos quais o autor cria login e senha em uma plataforma específica para acompanhar o processo de avaliação. Ali, tratava-se apenas de um formulário direto para envio do manuscrito.
Diante dessa inconsistência, fiz uma busca no Google. O nome da revista existe, e o ISSN informado é legítimo (ISSN 0034-8082). Em tese, trata-se de um periódico vinculado ao Instituto Nacional de Evaluación Educativa da Espanha, órgão ligado ao Ministerio de Educación y Formación Profesional. Ou seja, uma publicação institucional, com trajetória consolidada.
Contudo, ao aprofundar a busca, encontrei o site oficial da revista, completamente diferente daquele que havia sido indicado no e-mail. Ficou evidente que se tratava de uma página criada para simular a identidade do periódico.
A Figura 1 apresenta o site fraudulento. A Figura 2 mostra o site oficial da revista. Já a Figura 3 ilustra como a pesquisa no Google pode influenciar os resultados. Acredito também que muitas pessoas tendem a confiar mais em uma URL curta do que em uma URL longa (Figura 2).
Figura 2. Site oficial da Revista Educación.
Figura 3. Busca Google realizada em 26/02/2026, 9h47.
Estamos diante de uma situação de hijacked journals.
O que são hijacked journals?
No contexto da comunicação científica contemporânea, hijacked journals (revistas sequestradas) são uma forma sofisticada de fraude acadêmica em que golpistas criam sites fraudulentos que imitam o nome, o ISSN e outros elementos identificadores de uma revista legítima já existente.
Ao acreditar que estão enviando seus manuscritos a uma revista consolidada, os pesquisadores acabam submetendo seus trabalhos a um site fraudulento. Em muitos casos, há cobrança indevida de taxas de publicação; em outros, pode haver apropriação de propriedade intelectual ou uso indevido de dados dos autores. Esses sites frequentemente clonam identidade visual, escopo, corpo editorial e até informações institucionais, o que pode enganar inclusive pesquisadores experientes.
O perigo dos hijacked journals vai além de simples spam acadêmico. Esses sites podem aparecer em resultados de busca devido a estratégias de otimização ou, em alguns casos, surgir quando domínios institucionais expiram e são registrados por terceiros mal-intencionados. Há relatos recentes de redes de revistas sequestradas que chegaram a confundir pesquisadores ao alegarem indexação em bases reconhecidas. O tema vem sendo discutido há alguns anos, como em Beall (2016). Nair (2023), ao discutir casos relacionados à presença indevida de periódicos fraudulentos associados à Scopus, mostra como essas práticas podem comprometer a confiança nas bases de indexação e gerar incerteza quanto à legitimidade dos periódicos.
Por que isso está aumentando?
A lógica do “publicar ou perecer” tornou-se estrutural na vida acadêmica. Publicações influenciam progressão na carreira, concessão de bolsas, avaliações institucionais e rankings. Em muitos contextos, o número de artigos publicados acaba pesando mais do que sua qualidade ou impacto real. Esse ambiente cria urgência. Convites para publicar com “avaliação rápida” e “publicação garantida” encontram pesquisadores pressionados por prazos, editais e metas. Golpistas exploram exatamente essa vulnerabilidade, oferecendo velocidade e reconhecimento aparente.
Outro fator é a internacionalização da ciência. Hoje, a produção científica é global, e pesquisadores recebem convites em outros idiomas, frequentemente de periódicos estrangeiros. Essa circulação ampliada é positiva para o intercâmbio acadêmico, mas também dificulta a verificação de autenticidade.
Outro ponto é o modelo de financiamento das revistas científicas, que mudou significativamente com a expansão do acesso aberto. Muitas publicações legítimas passaram a cobrar APCs (taxas de processamento de artigos) para viabilizar a disseminação gratuita do conteúdo. E os golpistas se aproveitam dessa normalização.
Por fim, o baixo letramento digital científico é um ponto nevrálgico. Nem todos os pesquisadores (especialmente estudantes de graduação e pós-graduação) foram treinados ou devidamente instruídos para verificar a autenticidade de periódicos. Alguns não sabem, por exemplo, como:
- Confirmar se a indexação alegada é real.
- Verificar o ISSN em bases oficiais.
- Checar se os DOIs publicados estão ativos e corretamente registrados.
- Identificar se o domínio do site corresponde à instituição oficial.
A formação científica tradicional raramente inclui competências de segurança informacional. Em um ambiente acadêmico cada vez mais digitalizado, essa lacuna se torna um risco estrutural.
Embora os hijacked journals não sejam um fenômeno recente, o avanço da IA generativa acrescenta uma nova camada de sofisticação a esse tipo de fraude: uso de ferramentas capazes de produzir textos coerentes, formais e personalizados permitem que golpistas elaborem convites para publicação praticamente indistinguíveis de comunicações legítimas, eliminando erros gramaticais e inconsistências que antes funcionavam como sinais de alerta. Além disso, a geração automática de conteúdo institucional, como escopos editoriais, diretrizes para autores e descrições de indexação, torna os sites fraudulentos mais convincentes e profissionais. A facilidade de tradução para múltiplos idiomas e a possibilidade de produzir mensagens em larga escala ampliam ainda mais o alcance dessas práticas.
O papel da IA generativa na sofisticação das fraudes
Embora os hijacked journals não sejam um fenômeno recente, a popularização da IA generativa tem elevado significativamente o nível de sofisticação dessas práticas, pois temos ferramentas capazes de produzir textos formais, coerentes e personalizados. Isso permite a elaboração de convites para publicação praticamente indistinguíveis de comunicações legítimas.
Além disso, esses sistemas podem utilizar dados coletados na internet, tais como informações disponíveis em currículos acadêmicos, perfis em redes sociais, páginas institucionais e repositórios de pesquisa, criando mensagens altamente direcionadas. A mensagem passa a mencionar áreas específicas de atuação, artigos publicados ou projetos em andamento, aumentando a credibilidade da abordagem. Em alguns casos, respostas automáticas são produzidas por bots que simulam interações editoriais, criando a impressão de um processo de avaliação real.
Por fim, diante da constatação, encaminhei um e-mail à revista oficial informando sobre a existência do site fraudulento que está utilizando indevidamente o nome e os dados do periódico.
Referências
Beall, J. Ban predators from the scientific record. Nature 534, 326 (2016). https://doi.org/10.1038/534326a
Nair, Anagha. Attention Scopus Users! Study Reveals 67 Hijacked Journals Prompting Concerns. Enago Academy, 18 de dezembro de 2023. https://www.enago.com/academy/hijacked-journals-in-scopus/
